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Cursos de Língua materna: uma mais-valia!

Além de uma mais-valia, os cursos de língua materna são igualmente vitais na aprendizagem de línguas estrangeiras – a aprendizagem destas últimas será sempre feita com referência à nossa língua materna. Quem não souber correctamente a sua língua materna (dentro dos limites considerados "correctamente", claro; pois ninguém pode pretender dominar perfeitamente uma língua, nem mesmo a sua língua materna) nunca conseguirá falar bem uma outra língua. Os exemplos de pessoas que encontramos diariamente são uma prova evidente do que afirmo: saber "dizer umas coisas" para se fazer entender pelo seu interlocutor não significa saber falar a língua dele. E se o iletrado, por vezes, até na sua língua materna compreende "alhos por bogalhos", o que não será relativamente a uma língua estrangeira, cuja expressão passa – pelo menos numa primeira fase de aprendizagem – pela referência à sua língua materna?

Quanto mais à vontade estivermos na nossa língua materna, mais fácil será compreendermos uma outra língua; por outro lado, quantas mais línguas sabemos, igualmente mais fácil será aprendermos outras – é como uma bola de neve. Quanto mais sabemos, mais queremos saber; e quanto mais sabemos, mais nos apercebemos de que o nosso saber é uma gota de água num vasto oceano. Só uma "doce ignorância" poderá levar a acreditar que se sabe muito e que nada mais se tem a aprender. Costuma até usar-se uma explicação matemática para demonstrar por que razão os que sabem pouco julgam que sabem muito, e aqueles que sabem muito têm a humildade de considerar que "nada sabem".

Antes de continuar, todavia, a expor o meu ponto de vista quanto à necessidade de aprendizagem da língua materna, importa esclarecer aqui o que é a "língua materna". O seu contexto nem sempre é o mesmo; depende de várias situações e factores.

Na sua significação original, a "língua materna" é aquela que aprendemos ainda no berço e que nos é transmitida pela nossa mãe. Quando nascemos não vimos nem ouvimos; mas rapidamente estes dois sentidos se desenvolvem e, aos quatro meses, já adquirimos a capacidade de distinguir sons, sobretudo vozes humanas, sendo a da nossa mãe a mais importante e que identificamos claramente de entre as outras. E a primeira palavra que, regra geral, aprendemos a dizer é "mamã" na nossa língua materna! Não é por acaso que assim é: à medida que vai satisfazendo as nossas necessidades vitais, como dar o biberão ou mudar as fraldas, a nossa mãe vai-nos falando na sua língua – que será a nossa língua materna – repetindo invariavelmente a própria palavra "mamã". Há certos linguistas que defendem uma razão puramente de carácter linguístico para justificar que as primeiras palavras que geralmente aprendemos são "mamã" e "papá", mas decerto que eles nunca se ocuparam dos filhos, por isso explicam como um fenómeno mecanicamente linguístico aquilo que resulta simplesmente de um acto normal de evolução subjectiva da criança. A minha própria experiência como mãe assim mo demonstrou.

A linguagem infantil vai depois passando por várias fases, correspondentes aos diferentes estados de desenvolvimento da personalidade infantil ou, como prefiro dizer, de evolução intelectual e afectiva da criança. A língua é uma forma de expressão do pensamento, que é subjectivo, por isso, tal como o nosso ouvido "acordou" em determinada altura e tomou consciência do mundo dos sons que o rodeavam - captando-os, assimilando-os e transformando-os em palavras e frases que, por sua vez, foram transmitidas ao subconsciente - igualmente essas palavras e frases foram captadas, assimiladas e estruturadas sob outras formas e expressões verbais pelo nosso subconsciente.

Conforme o estádio de evolução da alma da criança, assim também a sua capacidade de compreensão e expressão da linguagem. Toda esta aprendizagem só é devidamente alicerçada quando a criança entra para a escola e começa a aprender a estrutura gramatical da língua. Para que a linguagem seja mais do que um conjunto de palavras e frases sem sentido, é necessário que ela contenha subjectividade e estrutura gramatical.

Esclarecido o significado original de língua materna, podemos passar agora a analisar quais as situações e factores que, no caso específico de alguém que nasceu ou emigrou muito cedo para outro país, podem fazer variar o contexto de língua materna. É o que farei num próximo artigo.

© Dulce Rodrigues

 
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