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SER AUTOR
"Ser autor de um livro é ter a paixão de viver, ser feliz a escrever (...)".
Com esta frase, começava um dos poemas que me foram dedicados por algumas crianças das escolas de Longwy, na França, quando da minha visita, em Maio de 2002.
© Dulce Rodrigues
A história por trás da estória de Piloto e Lassie
Quase todas as minhas estórias têm também uma história. Piloto e Lassie, uma outra estória de Romeu e Julieta não foi excepção.
Quem eram o Piloto e a Lassie? Simplesmente um casal de canídeos, cujos donos eram os meus filhos gémeos, Eduardo e Gustavo, respectivamente.
Este simpático casal de canídeos foram os pais do Barry, o herói do meu livro-mascote para crianças A Aventura do Barry
e ”dono” do sítio infanto-juvenil (em quatro línguas) www.barry4kids.net.
“Que têm o período pós-Maio 68 e a perda de valores humanos a ver com o gosto pela leitura,” perguntarão muitos de vós. “Têm tudo a ver!”
O hábito da leitura começa muito mais cedo do que na escola; começa no seio da família. Tal como para qualquer outro Primata,
também a aprendizagem do bebé humano se faz nos primeiros 4-5 anos da sua existência. Na formação do carácter de qualquer indivíduo obviamente que os genes têm um papel importante que, contudo,
não representa senão uma pequena percentagem em relação a outros factores como o meio familiar e o meio social em que se está inserido, responsáveis por parte da nossa educação.
Ora acontece que, nestes últimos decénios, tem-se assistido a uma degradação acelerada de princípios morais básicos, como o respeito, a disciplina, a autoridade
(não confundir com autoritarismo, uma confusão muito jornalística e politicamente correcta nos dias de hoje) e, inevitavelmente, a vida familiar. Vive-se numa sociedade que priviligia o “parecer” em vez do “ser”.
Tornámo-nos seres superficiais; deixámos de ser autênticos. Apreciamos tudo o que é fácil de obter, pondo de lado e evitando tudo o que dá trabalho. É a sociedade do “prazer”, do “divertimento”.
Os pais deixaram de ter tempo para se ocuparem dos filhos, pois estão demasiado ocupados em “curtir” a vida.
E como o exemplo vem sempre de cima – quer seja bom ou mau, na prática – os filhos seguem o exemplo dos pais e querem da vida o que lhes dê prazer imediato e não trabalho.
Ora, aprender a ler não é, em princípio, nem um prazer nem um divertimento; requer esforço e disciplina – qualidades que não foram inculcadas desde a infância nas actuais gerações.
Contudo, a leitura, além de fonte de conhecimento, pode tornar-se num prazer e num divertimento. A leitura é o veículo que nos transporta para outros mundos – o mundo da criatividade e do saber.
O progresso da humanidade fez-se através de, pelo menos, estes dois elementos que despertam logo no início da nossa vida.
Quantos de nós não fizemos já a pergunta: “Como é possível que seres tão curiosos de saber, de aprender, de investigar como são as crianças, podem transformar-se em seres tão amorfos e ignorantes como são a maioria dos adultos?”
A resposta é: “Esses mesmos adultos são aqueles que foram “castrados” intelectualmente em crianças por adultos também eles vítimas de castração intelectual.
É um círculo vicioso familiar do qual tem de se sair em determinado momento, e o melhor momento é precisamente o período da primeira infância, para podermos "sair" ainda antes de termos "entrado".
Quando as crianças chegam à idade escolar, já levam esses maus ou bons hábitos de leitura inculcados. Mas, claro, ainda se está muito a tempo de inverter o processo; só que, então, surge uma segunda razão que tem conduzido ao desinteresse pela leitura e, consequentemente, pela aprendizagem e aquisição de conhecimento. Ficará para o próximo artigo.
Postado por Dulce Rodrigues
RAZÕES POR QUE AS CRIANÇAS DEIXARAM DE LER
As razões são várias. Muitas pessoas acreditam que as crianças e os jovens já não lêem e só querem ver tevê e jogar com Nintendo, e culpabilizam a internet e as novas tecnologias por isso.
Tenho uma opinião diferente. Como digo no meu sítio infanto-juvenil, pela boca do cão Barry,
“acho que a internet pode ajudar os jovens a criar hábitos de leitura.”
Um dos problemas da perda de gosto pela leitura tem raízes com pelo menos 40 anos, nesse eufórico período pós-Maio 68 em que começaram a abolir-se valores humanos cujas consequências estão à vista hoje em dia.
Aqueles que eram crianças e adolescentes nessa altura e que são os actuais pais de filhos com problemas foram as primeiras vítimas dessas “modernidades” e fizeram dos seus filhos outras tantas vítimas.
Felizmente, as crises da humanidade são cíclicas – a História assim o tem provado – e as coisas estão a mudar, estamos voltando a antigos valores humanos que se perderam ao longo destes decénios.
Mas os progressos são lentos – é mais fácil e rápido destruir do que reconstruir.
“Que têm o período pós-Maio 68 e a perda de valores humanos a ver com o gosto pela leitura,” perguntarão muitos de vós. “Têm tudo a ver!”
O hábito da leitura começa muito mais cedo do que na escola; começa no seio da família. Tal como para qualquer outro Primata,
também a aprendizagem do bebé humano se faz nos primeiros 4-5 anos da sua existência. Na formação do carácter de qualquer indivíduo obviamente que os genes têm um papel importante que, contudo,
não representa senão uma pequena percentagem em relação a outros factores como o meio familiar e o meio social em que se está inserido, responsáveis por parte da nossa educação.
Ora acontece que, nestes últimos decénios, tem-se assistido a uma degradação acelerada de princípios morais básicos, como o respeito, a disciplina, a autoridade
(não confundir com autoritarismo, uma confusão muito jornalística e politicamente correcta nos dias de hoje) e, inevitavelmente, a vida familiar. Vive-se numa sociedade que priviligia o “parecer” em vez do “ser”.
Tornámo-nos seres superficiais; deixámos de ser autênticos. Apreciamos tudo o que é fácil de obter, pondo de lado e evitando tudo o que dá trabalho. É a sociedade do “prazer”, do “divertimento”.
Os pais deixaram de ter tempo para se ocuparem dos filhos, pois estão demasiado ocupados em “curtir” a vida.
E como o exemplo vem sempre de cima – quer seja bom ou mau, na prática – os filhos seguem o exemplo dos pais e querem da vida o que lhes dê prazer imediato e não trabalho.
Ora, aprender a ler não é, em princípio, nem um prazer nem um divertimento; requer esforço e disciplina – qualidades que não foram inculcadas desde a infância nas actuais gerações.
Contudo, a leitura, além de fonte de conhecimento, pode tornar-se num prazer e num divertimento. A leitura é o veículo que nos transporta para outros mundos – o mundo da criatividade e do saber.
O progresso da humanidade fez-se através de, pelo menos, estes dois elementos que despertam logo no início da nossa vida.
Quantos de nós não fizemos já a pergunta: “Como é possível que seres tão curiosos de saber, de aprender, de investigar como são as crianças, podem transformar-se em seres tão amorfos e ignorantes como são a maioria dos adultos?”
A resposta é: “Esses mesmos adultos são aqueles que foram “castrados” intelectualmente em crianças por adultos também eles vítimas de castração intelectual.
É um círculo vicioso familiar do qual tem de se sair em determinado momento, e o melhor momento é precisamente o período da primeira infância, para podermos "sair" ainda antes de termos "entrado".
Quando as crianças chegam à idade escolar, já levam esses maus ou bons hábitos de leitura inculcados. Mas, claro, ainda se está muito a tempo de inverter o processo; só que, então, surge uma segunda razão que tem conduzido ao desinteresse pela leitura e, consequentemente, pela aprendizagem e aquisição de conhecimento. Ficará para o próximo artigo.
Postado por Dulce Rodrigues
UM LIVRO, UMA PRENDA PARA TODAS AS OCASIÕES
A propósito do livro como prenda, gostaria de partilhar com os meus leitores algumas reflexões sobre o tema em questão, tema esse que, como autora, considero de grande interesse e importância.
Do mesmo modo que para o autor a escrita é o interlocutor paciente que não questiona as suas perguntas mas que lhe sabe sugerir respostas, ajudando-o a analisar os factos de uma maneira mais objectiva e lúcida, também para o leitor o livro é aquele amigo paciente que não o julga nem critica,
mas que o ajuda a encontrar as respostas que procura em vão algures; que lhe permite evadir-se de uma realidade que por vezes o sufoca; que lhe poderá até apontar o caminho a seguir para atingir metas que julgava inacessíveis.
Um livro é um utensílio através do qual tomamos contacto com novos mundos e culturas até aí desconhecidos. Um livro é uma ponte para se ultrapassarem fronteiras, sejam essas fronteiras geográficas, de raíz religiosa, económica, ou outras.
Mas, há que distinguir o livro de um objecto decorativo para pôr na prateleira. A apresentação gráfica de um livro é importante, mas é sobretudo o seu conteúdo literário que nos deve interessar, pois é nele que reside o valor intrínseco de um livro.
O livro deve transmitir ao leitor conhecimentos sobre assuntos variados; numa palavra, o livro deve contribuir para o enriquecimento cultural do leitor e incentivá-lo cada vez mais à leitura, que permitirá muitas vezes descobrir e despertar nele capacidades e vocações que, de outro modo, poderiam ficar adormecidas para sempre.
Poderemos encontrar melhor prenda do que um livro, qualquer que seja a altura do ano?
Postado por Dulce Rodrigues
PARTILHAR OS CONHECIMENTOS LITERÁRIOS NA ESCOLA
A jornada "Partilhar os conhecimentos literários na escola", em Longwy, França, realizou-se no dia 23 de Maio de 2002, por iniciativa e a convite da Inspecção da Educação Nacional.
Tratava-se de um encontro entre autores de livros para crianças e alunos das escolas onde tinha sido distribuído e lido o seu livro.
Os conselheiros pedagógicos do Departamento tinham feito, alguns meses antes, a escolha dos livros, escolha essa que incluía também livros de autores belgas
(razão por que estive presente nessa manifestação, através do distribuidor na Bélgica do meu livro em francês L'Aventure de Barry).
Esses livros foram depois distribuídos pelas várias escolas e trabalhados durante as aulas pelos alunos e os professores.
Todos os autores foram convidados pelo Conselho pedagógico de Longwy 1 a começar o dia com um pequeno-almoço de confraternização, após o qual cada autor se dirigiu à(s) escola(s) onde tinha sido lido e trabalhado o seu livro.
Pessoalmente, tinha quatro escolas para visitar: duas de manhã e duas à tarde.
Os miúdos estavam super contentes em me conhecer - normalmente os autores de que ouvem falar já morreram, portanto, conhecerem um autor que está "vivo" e com quem podem conversar é um acontecimento extraordinário.
Na primeira escola, o caminho desde a entrada até ao local de encontro estava identificado com letreiros (feitos pelos alunos) indicando os vários países por onde passara o Barry na sua viagem desde Portugal até à Bélgica.
As perguntas incidiram sobre a vida do autor (neste caso a minha) e o respectivo livro, e foram feitas através de rifas numeradas - umas de cor rosa e outras azuis. Cada aluno tinha um número azul e um rosa.
À medida que eu ia tirando uma rifa com um determinado número e cor, o aluno respectivo fazia a sua pergunta.
Numa outra escola, as crianças ofereceram-me desenhos e recitaram poemas que tinham composto inspirados pelas estórias do livro.
Fiquei admirada com a quantidade e, sobretudo, com a qualidade dos poemas, especialmente se tomarmos em consideração a idade das crianças em questão.
E ainda maior foi o meu espanto e a minha satisfação quando soube pela professora que a inspiração poética lhes viera ao lerem o meu livro e que nunca tinham feito poemas antes.
Este facto deixou-me bastante emocionada, como é compreensível.
Noutra escola, pediram-me que lesse algumas frases das estórias em português, o que é uma atitude extraordinariamente positiva e revela curiosidade e interesse por outras culturas,
devido certamente ao facto de eu ser estrangeira e essa ser a minha língua. Na sua generalidade, o acolhimento e participação dos alunos foi semelhante em todas as escolas,
sem esquecer a oferta de flores e também de pequenos objectos feitos pelos alunos. E o pedido de autógrafo nos cadernos e numa folha de papel especialmente trazida para o efeito, claro!
O enriquecimento pessoal que tirei, mais uma vez, do meu trabalho com crianças não tem "preço", é um valor humano que ultrapassa qualquer escala "materialista".
No fim da tarde, realizou-se numa sala do Centro Cultural de Longwy uma sessão de dedicatória por parte dos autores,
Devemos concordar que iniciativas como esta são muito interessantes e acessíveis às escolas. Elas permitem também àqueles autores - que não editam através das grandes casas de edição - dar a conhecer os seus livros ao público a que os mesmos se destinam essencialmente.
Na sociedade de consumo em que vivemos presentemente, as pessoas são levadas a comprar sobretudo os livros sobre os quais é feita grande publicidade.
Muitos desses livros não são os mais ricos em conteúdos adaptados à idade da criança, não suscitando o interesse da criança e não a preparando, portanto, para a leitura e a compreensão do que lê.
Em contrapartida, se a escola pretende fazer com os alunos um trabalho sobre um livro, esse livro deve, em princípio, obedecer a critérios bem específicos,
que pressupõem uma estória suficientemente elaborada para permitir esse trabalho.
Possivelmente o livro escolhido pelos professores não terá uma apresentação tão bonita quanto outros (nem sequer precisa de ter imagens), mas a finalidade da leitura não é ter um belo livro para pôr na prateleira.
Bem pelo contrário, o livro deve transmitir ao leitor conhecimentos sobre assuntos variados, sobre outras gentes e outras culturas.
Numa palavra, o livro deve contribuir para o enriquecimento cultural do leitor e incentivá-lo cada vez mais à leitura, que permitirá muitas vezes descobrir e despertar nele capacidades e vocações que, de outro modo, poderiam ficar adormecidas para sempre.
Postado por Dulce Rodrigues
LER SEM FRONTEIRAS
Sob o título "Os Livros podem ser pontes" ou, se preferirmos, "Ler sem fronteiras" (a expressão usada pelos países francófones), realizou-se de 13 a 16 de Maio passado em Saarbrücken, na Alemanha, o 2° Salão Europeu do Livro Infanto-Juvenil.
No certame deste ano, estiveram representados mais países europeus do que no primeiro, mas ainda não foi desta vez que Portugal aí participou: uma vez mais brilhámos pela nossa ausência no estrangeiro num acontecimento cultural.
E se eu tive o grande prazer de lá estar presente, a convite dos organizadores, foi através do distribuidor, na Bélgica, do livro L'Aventure de Barry
que editei em língua francesa em Dezembro de 1999. O meu distribuidor teve a amabilidade de levar consigo alguns exemplares de A Aventura do Barry,
a versão portuguesa em CD-ROM que entretanto saíu em Portugal. Mas, obviamente, isso não tinha carácter oficial, foi simplesmente um gesto simpático da parte deles.
A finalidade destas linhas, todavia, é alertar os responsáveis no nosso país para a importância de iniciativas como o salão do livro de Saarbrücken, e para a necessidade urgente de promover o interesse das crianças para a palavra escrita.
As crianças apreciam quando lhes possibilitamos o acesso à leitura, através do qual podem tomar contacto com novos mundos e gentes até aí desconhecidos.
É preciso, evidentemente, saber como sensibilizá-las para essa leitura, pois os dados revelados, na Alemanha, pelo estudo PISA, não são nada animadores.
Segundo as próprias palavras de Jürgen Schreier, Ministro da Cultura e Ciência da Alemanha, no seu discurso de abertura do salão
"25% dos jovens de 15 anos não conseguem compreender correctamente um texto, não têm a capacidade de explicar com palavras suas o que acabaram de ler"!
Esta é a situação num país onde as pessoas têm (ou, pelo menos, tinham...) por tradição o hábito da leitura, onde se paga para se ir ouvir um escritor ler e falar daquilo que escreveu.
O que seria se um estudo semelhante fosse feito em Portugal?!?! *.
Qual é, pois, uma das maneiras de sensibilizar as crianças para a leitura se, como infelizmente parece ser o caso, essa iniciação à leitura não é feita no seio da própria família?
E aí é que reside principalmente o problema. O salão do livro de Saarbrücken mostrou-nos vários caminhos. E um deles tem a ver exactamente com o convite feito a alguns autores, quer alemães quer estrangeiros.
O nosso programa incluía a leitura em escolas. O interesse extraordinário que despertou nas crianças o simples facto de saberem que um escritor vinha à escola para lhes ler uma ou mais estórias, era por si só já um despertar para a leitura.
E gostaria de vos contar o que se passou numa das escolas. Mas, antes, devo esclarecer alguns pontos de interesse.
Tendo a região do Saar alguma tradição também francófona, por razões históricas e geográficas, é muito vulgar que os Alemães ali falem também um pouco o francês. Existe, inclusivamente, uma escola francesa que funciona a partir do jardim de infância,
frequentada indiferentemente por Alemães ou Franceses. E é muito vulgar que nas escolas alemãs se encontrem crianças cuja língua materna é o francês, pois igualmente muitos Franceses vivem naquela região.
A minha primeira leitura era numa escola alemã, por isso, li duas das estórias do meu livro que tinha traduzido entretanto para alemão. Devo dizer que não é fácil conseguir manter mais ou menos quietas e caladas cerca de 70 crianças entre os 6-7 e os 8-9, durante uma hora e meia.
A leitura deveria ter sido feita individualmente para cada classe, e durante um período inferior a uma hora, não ao mesmo tempo a três classes diferentes, mas compreende-se que os professores quisessem que o máximo de crianças aproveitassem a experiência.
Ao fim de cerca de uma hora, eu já tinha lido as duas estórias e tinha falado um pouco com os miúdos - como costumo fazer quando vou fazer leitura numa escola.
O director diz-me, então, que se algumas crianças tinham estado um pouco mais irrequietas é porque eram francesas e não tinham compreendido tudo; que esse era um dos grandes problemas nas aulas:
quando se falava alemão, os de língua francesa nem sempre percebiam tudo; quando se falava francês, eram os de língua alemã que ficavam sem perceber.
Sugeri que, nesse caso, visto que ainda tínhamos tempo, eu lesse uma das estórias em francês. O que fiz. E foi a vez dos pequenos alemães quererem ir "beber água", ou "ir aos lavabos",
No fim da leitura, contudo, todos queriam abraçar-me, testemunhar-me o seu reconhecimento e, de entre todos, havia uma miúda especialmente afectuosa para comigo.
O director lamenta-se de novo, dizendo que, além dos problemas de língua com os miúdos alemães e os franceses, ainda tinham casos piores,
pois algumas crianças vinham ainda de outros países, como era o caso de X (e apontou a dita miúda), que chegara do Sri-Lanka e praticamente não falava nem alemão nem francês!
Espantoso e, sobretudo, comovente, que aquela criança, que afinal não compreendera nenhuma das estórias, tivesse ficado tão feliz só pelo simples facto de eu lá ter ido dar-lhes um pouco do meu tempo!
Muito mais haveria para contar sobre a minha experiência, não só nas escolas alemãs durante o salão do livro, mas também nas belgas e francesas. O que é importante retirar de tudo isto, contudo, é o impacto positivo de tais iniciativas,
quer sejam com autores ou com ilustradores de livros infantis, pois esses igualmente estiveram presentes e foram às escolas desenhar para as crianças.
Outras iniciativas que fizeram parte do programa foram os teatros de robertos ou marionetas, concertos de música, etc.
Para quando uma iniciativa semelhante em Portugal - mesmo que a nível somente nacional? Talvez agora comecem a haver mudanças culturais no nosso país, num ambiente democrático e liberto de pressões por parte de certos grupos de pessoas que, nem fizeram, nem deixaram fazer.
E se a minha experiência e modesto conhecimento sobre o assunto poderem ser de alguma utilidade, desde já apresento a minha disponibilidade para colaborar,
Os livros são efectivamente uma ponte para se ler sem fronteiras, sejam essas fronteiras geográficas, de raíz religiosa, económica, ou outras.
* Segundo informação que obtive mais tarde, a percentagem em Portugal é superior a 77%!!!
Postado por Dulce Rodrigues
ESCREVER PARA CRIANÇAS
Uma vida depois da reforma
Estas minhas linhas dirigem-se a todos os que terão o privilégio de se poderem reformar um dia, quer esse dia ainda esteja longe ou aconteça já amanhã.
Ao escrevê-las, pretendo assegurar-vos de que há efectivamente uma vida para além da reforma, na maior parte dos casos muito mais gratificante sob o ponto de vista pessoal, intelectual e outros do que a nossa carreira profissional – mas que é conveniente começar a preparar, se possível, quando ainda activos nesta última.
Pessoalmente, considero que a regra para uma “carreira” agradável e com êxito depois da reforma assenta em três pontos principais: fazer o que gostamos, como gostamos, e quando gostamos! E isto é tanto mais importante quando durante a nossa vida profissional tivemos de trabalhar com pessoas e executar tarefas
– que nem umas nem outras, não interessa mencionar aqui – que, em circunstância alguma, correspondiam às nossas qualificações académicas ou interesses intelectuais.
Quando ainda garota, já gostava de contar estórias a outras crianças como eu. Mais tarde, no liceu, contudo, preferia as provas escritas às orais, e lembro-me de que, um dia, escrevi um conto para o curso de História de que a professora gostou tanto, que me pediu para deixar o manuscrito na biblioteca do liceu.
A escolha de um primeiro curso universitário em Letras e Literaturas foi não só uma escolha judiciosa como também uma maneira de proporcionar a mim própria momentos agradáveis na minha rotina profissional.
E, curiosamente também, mesmo o curso de Ciências que tirei anos mais tarde quando voltei a pisar o campo universitário (desta vez com uma universidade inglesa), deu-me a oportunidade de continuar a me exprimir plenamente por palavras noutras línguas.
Conseguir transformar esta paixão pela palavra escrita num “trabalho” a tempo inteiro depois de me reformar, estava somente à distância de alguns toques nas teclas do meu computador...
E como o conhecimento deve ser partilhado, sob pena de se tornar estéril, ao me aperceber das enormes dificuldades das crianças e dos jovens relativamente à leitura e à sua relação com a cultura em geral,
achei que escrever para esta faixa etária – que representa o futuro de qualquer país e pela qual sinto um grande afecto – era a direcção natural que eu devia tomar.
Postado por Dulce Rodrigues
SER AUTOR
"Ser autor de um livro é ter a paixão de viver, ser feliz a escrever (...)".
Com esta frase, começava um dos poemas que me foram dedicados por algumas crianças das escolas de Longwy, na França, quando da minha visita, em Maio de 2002, por ocasião do encontro dos alunos com os autores dos livros lidos e trabalhados na escola.
Acho extraordinário que uma criança de nove anos tenha a sensibilidade e, diria mesmo, a maturidade de um pensamento tão profundo e que define, numa expressão simples e clara, o significado do acto de escrever.
Escrever tem sido para mim, efectivamente, uma necessidade e uma fonte de alegria constantes, embora nem sempre com uma continuidade ou um fio condutor semelhantes, quer do ponto de vista do conteúdo, quer da forma.
Mas escrever para crianças é algo de especial, que me proporciona uma maior realização e enriquecimento pessoais. Uma estória para crianças deve ter um discurso autêntico e espontâneo e desenvolver um laço afectivo entre o leitor, as personagens e o autor.
Por isso, tenho sempre procurado continuar a ver o mundo através de um olhar de criança.
E se as crianças têm sabido compreender tão bem as mensagens implícitas nas minhas estórias é porque se identificam com as personagens, os seus defeitos, virtudes, desgostos e desejos.
Muitos autores escrevem pura ficção; eu prefiro extrair da própria vida os temas dos meus contos ou das minhas novelas. E assim como a nossa experiência do passado é o nosso guia no futuro, também o curso da nossa vivência influencia o discurso do nosso dia-a-dia.
Escrever permite a busca e o encontro consigo mesmo. Busca, porque através das personagens de um livro podemos interpelar-nos e interpelar os outros. Encontro, porque mesmo que não encontremos logo (ou nunca) a resposta que procuramos, tomamos consciência da realidade dos problemas que existem.
E tal como só nos podemos tratar de uma doença se aceitarmos que estamos doentes, também esses problemas só podem ser resolvidos se tomarmos conhecimento da sua existência e formos ao seu encontro.
Através do discurso escrito, avançamos na descoberta da dualidade das coisas, pois tudo tem o seu oposto: direita/esquerda; afirmação/negação; positivo/negativo.
A nossa escolha, que deve ser livre, decidirá do caminho a tomar, e cada caminho conduzir-nos-á a um destino diferente. Não existe fatalismo, é a nossa escolha que determina o nosso próprio destino.
A escrita é um interlocutor paciente que não questiona as nossas perguntas mas que nos sabe sugerir respostas, ajudando-nos a analisar os factos de uma maneira mais objectiva e lúcida.
Ao construirmos uma personagem estamos a caracterizá-la, permitindo-lhe que faça as mesmas perguntas que nós e, no fundo, as mesmas perguntas que toda a gente.
As respostas, essas são, evidentemente, individuais.
Postado por Dulce Rodrigues
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